TCHAU, VOVÓ.

16Feb09

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Eu imaginei que poderia descansar neste fim-de-semana, mas outra coisa aconteceu.

Sexta-feira perdi minha avó por parte de pai. Após três meses de batalha no hospital, D.Alcira decidiu partir.

Todos os meus outros avós ainda estão vivos, e além disso, essa foi a primeira vez que perdi alguém tão próximo e tão querido. Duas coisas neste momento são inevitáveis: estar triste e se render a um pouco de nostalgia.

Mas existe um motivo para que eu compartilhe esta história neste espaço: minha avó é responsável pelo meu primeiro contato com o universo da moda; e da arte, por consequência (como já mencionei na primeira postagem deste blog). Ela aprendeu a costurar sozinha, desmanchando um paletó antigo e usando-o como molde para fazer um novo; e assim passou a vida, costurando de pijamas de flanela para as netas a vestidos de noiva – alguém me contou, durante o velório, que houve uma noiva para quem ela fez simplesmente todo um guarda-roupa da lua-de-mel – além do vestido do casamento.

D. Alcira cuidou de mim no meu primeiro ano e meio de vida para que minha mãe pudesse trabalhar. Ela gostava de contar que me colocava sentadinha em cima da mesa da sala de jantar – uma mesa gigantesca – enquanto ela cortava a costura. Realmente, me lembro com muita nitidez do barulho da tesoura cortando o tecido e esbarrando no vidro que cobria a mesa.

Pouco depois meus pais mudaram para São Paulo, comigo a tiracolo, e a casa da minha avó virou o destino obrigatório das férias. Assim que eu chegava, corria em busa de um saco de retalhos que ela separava (para mim? não tenho certeza…) durante o semestre, e ia fazer “roupinha de boneca” – meu primeiro aprendizado em cores e criação. Passava as férias arrastando esse saco pra lá e pra cá.

Outra brincadeira boa era mexer no armário dela e vestir suas roupas. Ela costurava as próprias roupas e comprava bolsas e sapatos combinando – tinha um bom gosto incrível, apesar de um pouco tradicional. Também tinha muitos colares e brincos. Me lembro de uma grande blusa azul com a manga xadrez, que eu usava de vestido, junto com um colar de contas gandes e redondas, alaranjadas… mas a minhas peças preferidas eram: uma blusa de paetês preta e prata, as fantasias guardadas de carnavais passados e o vestido de noiva da minha tia, que ela costurou e bordou com miçangas e canutilhos.

Ela também costurava muito para mim e os outros netos e netas. Havia o ritual de procurar modelos na revista “Manequim”, ou eu mesma desenhava alguns. Também gostava de comprar roupas para gente, mas aí era um pouco mais complicado, porque era uma negociação entre o gosto dela e o nosso: se ela achasse a roupa feia, não comprava não! Ah, ela também tricotava blusas de lã que duravam muitos invernos…

Uma imagem recorrente que guardo dessa época são os croquis que suas freguesas deixavam na sua casa, para que minha avó fizesse a roupa em questão. Eu ficava fascinada pelas “moças elegantes” desenhadas no papel, e gostava dos detalhes das roupas, como golas e bolsos. Meus croquis preferidos eram os de vetido de noiva, claro. Depois que a roupa estava pronta, minha avó deixava eu colorir esses desenhos – minha experiência com o desenho começou assim, através do desenho de moda, o que pratiquei durante minha infância e adolescência inteiras (qualquer dia posto alguns desses desenhos, tenho boa parte deles guardados).

Com 18 anos voltei para BH, para estudar na Escola de Belas Artes da UFMG, e fui morar na casa dela, onde fiquei por nove anos. Este encontro deveria ter sido a minha oportunidade de aprender a costurar, e guardar comigo todas as coisas que ela sabia, mas foi diferente: completamente seduzida pelo universo da arte, e mais tarde pela sala de aula, deixei de lado por muito tempo minha paixão pela moda. Assim, não pude aproveitar o que minha avó poderia me dar, e era muita coisa… Fizemos algumas tentativas, mas eu era uma aluna um pouco rebelde, e ela, uma professora com pouca paciência. Nossas últimas aulas foram em julho de 2008.

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Mesmo assim, acho que aprendi bastante observando. E uma coisa ela pôde deixar para mim: seu conhecimento sobre como e quando usar uma roupa; seu senso estético; seu bom-gosto – repetindo a expressão já usada lá em cima… Uma coisa que fazíamos muito juntas era observar revistas como Caras ou mesmo Vogue ou os resumos das semanas de moda, que eu levava para ela ver, e discutir cada roupa. Ela folheava a revista devagar, observando cada foto, e comentava as que gostava. Se eu me distraía, ela dobrava a página da revista para marcar o que ela tinha achado interessante – hábito dela que eu não gostava, pois vincava a revista, sem volta.

Por isso, e por mais um milhão de coisas, é que a morte da D. Alcira é tão sentida por mim. Além de ser uma avó deliciosa e minha madrinha, éramos muito ligadas por causa desse universo que dividíamos. Quando eu realmente precisava de uma opinião sobre uma roupa, era ela que eu consultava, mesmo que discordássemos; e conversar com ela constantemente sobre isso me ensinou coisas demais.

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Há 10 anos ela sofreu um derrame que deixou algumas sequelas. Entre elas a perda dos movimentos no braço direito, que ela usava para costurar. Ela nunca se conformou com isso e passou esses anos todos tentando costurar de alguma forma – claro que com a nossa ajuda: aí era engraçado, porque não raro ela queria desmanchar uma costura às 23:30hs, ou pregar um molde no tecido no momento mais inconveniente. De uns tempos para cá, ela aprendeu a colocar alfinetes no tecido com a boca!

Então gosto de imaginar que o céu dela é um imenso depósito de tecidos, abarrotado de estantes recheadas com os tecidos mais diversos. Há também muitas máquinas de costura, de vários tipos. Depois de observar esse lugar por algum tempo, ela se dá conta que seu braço está se movimentando de novo, e percebe que pode voltar a costurar. Assim, ela fica feliz em ver que o céu pelo qual esperou a vida toda realmente trouxe a ela o que ela mais sentia falta, e que agora poderá costurar por toda eternidade. Para seus irmãos e amigos que já subiram, e para nós que ficamos aqui embaixo, MORRENDO DE SAUDADE DELA.

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12 Responses to “TCHAU, VOVÓ.”

  1. 1 Juliana

    lísia, ficou lindo o texto e imagino o céu da sua vó desse jeitinho também.

  2. 2 fashionkillsme

    Ju, quem sabe esse não vai ser o nosso?

  3. lisinha, q lindo texto, me emocionei. acho q ele nao é so um desabafo ou um depoimento pessoal, traz coisas muito legais para vc se imaginar como pensadora/cronista de moda… mas isso pode ser uma mania minha de ver as coisas por esse angulo… seja como for, deve ser terapeutico esse registro da lembrança. que vc consiga estancar a saudade assim tambem… beijo nanda

  4. 4 Márcia

    Kicoisamaislindaessetextoooooooooo

    Eu, que me achava uma grande entendedora da sua relação com a vovó, me surpreendi e concordo com os outros posts!!!! Ficou lindo!!!!!!!!!
    Gostei muito do céu da vovó… Além de ela estar feliz por lá, imagina quantos modelitos Skyfashion e Paradise Wear nos esperam quando chegar a nossa hora?!?!?… Os meus, com muita pluma rosa e purpurina!!!!

    Bjoooooooo

  5. 5 mamy

    Lila que lindo o seu texto… uma despedida e uma homenagem…
    Chorei muito! De emoção, de saudade…
    Eu não sabia de coisas tão importantes que vc relembrou (eu sei que as mães não sabem tudo sobre seus filhos!!!) – colorir os desenhos das clientes, por exempo – embora soubesse de outras, porque vi, vivi e senti…
    Como eu imaginava, dos artistas e artesãos da família foi dela que vc recebeu a influência mais forte e significativa até porque foi com ela que vc muito conviveu.
    Ela foi de fato uma comadre… Vc sabe o que quer dizer co-madre, não é? Por via das dúvidas, quer dizer com a mãe, ou seja, os padrinhos de uma criança são com-padres dos pais pois assumem o compromisso de substituí-los ou fazerem junto a tarefa de criar/educar, sempre que isso se fizer necessário. Ela fez isso e muito mais, não é?…
    É verdade: ela nunca se conformou com a impssibilidade de costurar. Quando eu estava aí em BH, na casa dela e costurando a cortina para o vão da sua pia de cozinha, ela estava à minha volta. Num dado momento em que somente o barulho do costurar encheu o ambiente ela disse: “esse barulho é como música para meus ouvidos…” Tomara que essa seja uma das músicas que ela vai poder ouvir lá no céu que vc “criou” para ela.
    Beijocas e abraçocas

  6. 6 Andréia ( amiga de sua querida, mãe!)

    Lisa, querida!

    Adorei te (re)encontrar nesse blog tão colorido, com palavras tão vibrantes, com fotos que nos tiram o foco, para nos focar novamente!(rs)
    Impossível não se emocionar com a concha de retalhos que escreveu sobre/para sua avó! Quantas histórias guardadas e costuradas nesse momento de dor e de (re)nascimento!
    Agora passearei sp por aqui! E vou mostrar as fotos para Marina! (rs)
    E qdo vier a Sampa vamos vê se nos encontramos…
    Com carinho,
    Andréia.

  7. 7 Lisieux

    Lísia,

    Que linda a sua mensagem! Ela também me trouxe algumas lembranças gostosas ligadas a D. Alcira. Quando eu fiz quinze anos, ela me deu de presente a confeccção do meu vestido de debutante, acompanhou-nos desde o desenho, a compra do tecido. Ela gostava mesmo do que fazia e, enquanto o desenhista criava o modelo, ela dava sugestôes para encrementá-lo, pedindo que ele colocasse mais nervuras e mais rendas, pois estarva muito simples. Meu vestido ficou lindo e eu também, graças a ela.Quando eu também me for, quero levar o endereço deste céu que vc imaginou tão lindamente para ela.
    Beijos da tia Lisieux

  8. 8 Tia Ucha

    Tia Ucha – 01 / 03 / 2009

    Lisia querida, toda a sua saudade é muito linda.
    Ela não será esquecida; porque soube amar a todos.
    Beijo querida!

  9. 9 Claudia (amiga da mamãe)

    Oi Lisia, tudo bem?
    Fiquei emocionada ao ler seu texto sobre sua avó, pois tenho uma história muito parecida com a Filó, minha avozinha, que nos deixou em 2005. Também aprendi a costurar com ela, bem como a perder o medo de cortar o tecido: basta invocar a auxílio de Santa Terezinha e ir em frente! Lembro das histórias, como a da sua irmã Lucia que, invejando seus progressos na costura, cantava: “todas as costureiras são gente feia, namoram todo mundo, não casam com ninguém…”, e a fazia chorar. Ou sobre o pai alfaiate, meu bisavô que, como bom pisciano, deixava as encomendas para a última hora, e para enxergar melhor colocava a cadeira sobre a mesa, aproximando-se da lâmpada, e ia pedindo agulhas, linhas e panos para os onze filhos, empenhados em ajudá-lo.
    Estou certa de que o céu da minha Filozinha é muito parecido com o da D. Alcira – quem sabe elas não estão cortando e costurando alguma coisa exatamente agora?!
    Bjokas e felicidades entre panos e linhas, Claudia

  10. 10 Telma

    Lizia, não nos conhecemos pessoalmente mas, voce quase já é um personagem encantador – no amplo sentido que a palavra pode ter – para mim!!! Sou amiga da sua mãe e às vezes trocamos algumas fofoquinhas, histórias, denguinhos, dúvidas e preocupações entre outras coisinhas que as mães trocam. Sem dúvida, sua mensagem, repleta de carinho nas mais variadas forma, arrancou sem muito esforço um choro. Mas, foi de emoção, admiração. Estou admirada por apreciar e partilhar, mesmo que através só da leitura, de padaços tão significativos de vida. retalhos de amor, costurados com dedicação, que de tão forte que é a linha deixa marcado o prespoto na peça…Minha avó também me foi muito especial. Ela se foi há muito tempo e, posso dizer que estas avós, gostosíssimas, misturadas de rendas e feltros sempre, sempre nos farão falta.Mas veja, já temos uma coisa em comum para falarmos quando nos conhecermos! Ah, lembrei outra: a minha, me fez uma fantasia, de cetim estampado de verde e creme para o carnaval – calça pantalona e mini blusa com laçarote no busto – um luxo só! me achei linda!Tinha apenas 5 anos e ainda me lembro.Também teve um biquini, mas essa história fica para quando nos encontrarmos! deixo um beijo carinhoso. Telma


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