“VOCÊS VÊEM QUE DE VÁRIAS MANEIRAS OS VESTIDOS PODEM FAZER AS PESSOAS FELIZES”.

19Jun10

Após uma tarde cheia de trabalho, depois de ser obrigada a matar minha aula de costura para resolver pepinos administrativos, fechei o dia (agora já é madrugada do dia 19…) com chave de ouro: li, em uma sentada, a deliciosa auto-biografia de uma das jóias raras da história da moda brasileira: o estilista Dener Pamplona de Abreu (1936-1978).

O texto é bastante espontâneo, chegando a ser sarcástico quando fala de “assuntos sérios” (o episódio da deposição do presidente Jõao Goulart, contado por Dener, é uma verdadeira piada); mas é também muito verdadeiro ao trazer as opinões do estilista sobre moda e sobre as relações que as pessoas tinham com ela.  Aliás o capítulo em que ele fala especificamente da  – então – incipiente indústria de moda brasileira e critica a falta de interesse do governo em fomentá-la como maneira de garantir divisas para o país é, além de coerente, extremamente atual:

Se houvesse apoio oficial, as roupas poderiam ser muito mais baratas nas boutiques, tal como são na Europa. Comparando qualidade, tradição  padrões, temos as roupas industrializadas mais caras do mundo. O nosso prêt-à-porter de qualidade custa pelo menos o dobro do francês. neste caso, o que custa caro é o dinheiro que pagam nossas indústrias e a pequena quantidade de roupas que são obrigadas a fazer. Não entendo de economia, mas tenho o pressentimento de que o país está perdendo com isso… Conto tudo isso para mostrar que podemos expostar moda. E (falando sério), há outros bons costureiros no Brasil. Na América Latina não há grande moda a não ser no Brasil. As argentinas vestem-se muito bem mas usam a moda européia porque nunca apareceu lá um Dener para criar a moda nacional.

O conceito de moda nacional, na cabeça de Dener, era uma versão brasileira da alta-costura francesa. Mas, lendo suas idéias sobre o assunto, descobre-se que ele não era retrógrado, ou totalmente submisso aos padrões internacionais: era a época, e muitas vezes um artista fica preso a alguns padrões de sua época, mesmo tendo um grande desejo de inovação. Dentro de suas possibilidades, Dener queria que as mulheres paulistanas riquíssimas, sua clientela preferencial, parassem de comprar roupas fora do país – e tivessem outras opções que não a maison dele.  Palavra de quem chegou a ser sondado pela casa Dior para substituir o próprio, após seu falecimento.

O livro, relançado pela Cosac Naify em 2007, é leitura obrigatória para quem pretende conhecer nossa recente – e borbulhante! – história da moda…

Na internet há pouco material sobre Dener, mas consegui encontrar estes dois vídeos bem interessantes: no primeiro, Dener aparece como jurado (!) do programa Flávio Calvalcanti, em 1974; no segundo, um tributo em forma de slide show – com uma trilhazinha sonora bobinha – reúne um pouco da história do estilista, trechos do livro e uma boa colção de imagens.

Confira!

Ah, encontrei também um relato de uma noiva que teve seu vestido assinado por Dener; além do texto, há ótimas imagens, do tempo em que as noivas eram fotografadas na casa dos pais, muito antes do cafonééééééééérrimo dia da noiva. Vale a visita!

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One Response to ““VOCÊS VÊEM QUE DE VÁRIAS MANEIRAS OS VESTIDOS PODEM FAZER AS PESSOAS FELIZES”.”

  1. 1 Maína

    Muito bacana seu post, vou pedir esse livro de aniversário ; )


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