TITITI: REMAKE IMPOSSÍVEL!

19Jul10

Quem gosta de moda, e eventualmente gosta de novela, já sabe que hoje à noite estréia “TITITI”, remake da novela de Cassiano Gabus Mendes exibida em 1985.

A novela mostra a história de dois inimigos, rivais desde a infãncia, e tem a  indústria da moda como cenário. Na Wikipédia, encontrei uma sinopse que conta de forma simples o principal do enredo:

“As rivalidades entre Ariclenes Almeida e André Spina, que vêm desde a infância, se tornam mais acirradas quado Ari resolve entrar no terreno profissional de André, um conceituado estilista da sociedade paulistana, conhecido como Jacques Leclair.

Ari se infiltra no mercado da moda na pele do espanhol Victor Valentin, que vem ao Brasil para revolucionar o mundo da alta costura. Ele é ex-marido de Suzana. Os modelos de Ari/Victor são idealizados por Cecília, conhecida como Tia, uma doente mental que veste pequenas bonecas com classe e elegância. Só que Ari não sabe que Cecília é a mãe desaparecida da André.

Para piorar essa competição, os filhos dos dois rivais, Luís otávio (Luti), filho de Ari, e Walkíria, filha de André, se apaixonam e precisam lutar por esse amor.

No outro lado da história, destaca-se Gabriela, moça pobre e de caráter duvidoso que trabalha no ateliê de Jacques Leclair. Ela é seduzida e desprezada pelo filho do patrão, Pedro, um playboy com quem sua mãe, Marta, tivera um envolvimento para se vingar, Gabriela finge-se de grávida, e a família do rapaz obriga-o a se casar. Ela passa meses afirmando a falsa gravidez e fazendo Pedro passar por muitas humilhações, até que ele se apaixona por ela.”

JAcques Leclair (Rregialdo Faria) e Victor Valentin (Luís Gustavo)

A trama, na verdade, será uma adaptação de Maria Adelaide Amaral, e unirá o texto original da novela ao de outro texto, também de autoria de Cassiano Gabus Mendes: o da novela Plumas e Paetês, exibida em 1981, e que também tinha o universo da moda como pano de fundo (ui, trocadilho infame…).

Mas, além das modificações normais que uma adapatação, com um salto de 25 anos da primeira exibição, exige, há um detalhe que neste intervalo de tempo mudou da água para o vinho: a moda brasileira.

Em 1985, a moda nacional era radicalmente diferente de hoje:

– o conceito de prêt-a-porter era recém absorvido pela população mas ainda era mais chique mandar fazer a roupa do que comprá-la pronta;

– havia pouquíssimos estilistas, ainda chamados de costureiros e totalmente colados às referências internaionais (ops, isso já é diferente?);

– as “mulheres da sociedade” usavam exatamente os que os costureiros mandavam, e a noção de gosto pessoal em moda era nula;

– a indústria de moda daqui começava a engatinhar, e ainda demoraria muito para ver ser iniciado o profisionalismo que temos hoje;

– ainda não havia o acesso às marcas internacionais, que só podiam ser compradas lá fora – ou seja, elas ainda não tinham aportado por aqui para competir com nossos produtos brasileiros;

– e uma mudança essencial, que abarcou todo mundo, mas que promoveu tranformações mais que radicais na moda: em 1985 ainda não havia internet banda larga, e o acesso à informação de moda era muito muito muito mais restrito, para profissionais do setor e público consumidor.

No contexto politizado pós-ditadura que vivíamos nos anos 80, e moda parecia ser coisa de dondoca fútil despreocupada da realidade; hoje, moda é assuto sério, indústria consolidada e o 2º setor que mais movimenta a economia do país.

A autora reconhece a mudança de paradigma, e conta em entrevista algumas adequações planejadas por ela:

“Na versão original, Jacques Leclair e Victor Valentim tinham seus ateliers nos jardins e atendiam a alta sociedade. No remake, o ateliê de Jacques Leclair fica no Jardim Anália Franco, no Tatuapé, e ele atende as emergentes da Zona Leste. O sonho dele, porém, é ter uma loja na Oscar Freire e chegar ao São Paulo Fashion Week.

Valentim, que deseja ser tão bem sucedido com seu inimigo de infância, Leclair, já abre seu ateliê nos Jardins e ambos entrarão numa disputa acirrada para vestir socialites e celebridades. No original, Jacques Leclair é um nome consolidado.

No remake, é um estilista de gosto duvidoso, que se beneficia do talento de Jaqueline (Cláudia Raia) para fazer seu up-grade. Ou seja, seus modelos tinham um bom corte, mas informações demais. Retirados os excessos, suas criações ganham em bom gosto e revelam sua essencialidade. Nesse momento seu estilo é um mix de Calvin Klein e Armani. Já Victor Valentim, que se inspira nos vestidos de boneca feitos por uma senhora que na verdade é a mãe de Jacques Leclair – desaparecida e desmemoriada -, apresenta-se com um estilo inspirado nos anos 50, mix de Dior, Nina Ricci e Balenciaga.

Quando Cassiano Gabus Mendes escreveu Ti-ti-ti, a moda em São Paulo gravitava em torno de dois costureiros: Denner e Clodovil. Mas o universo da moda mudou tanto, que nem se usa mais a palavra costureiro, e sim estilista. Também nos anos 90 houve uma massificação e democratização na moda brasileira e os criadores voltaram-se preferencialmente para o Pret-à-porter (pronto para vestir). Por sugestão de Glorinha Kalil (especialista em moda), e para manter acesa a competição entre Jacques Leclair e Victor Valentim, resolvemos situá-los no segmento de vestidos de festa, noivas e madrinhas, que não conhece crise”.


Então agora é assistir e ver se a nova versão da história vai conseguir mostrar a moda de maneira menos fantasiosa que a originalPara quem lembra da exibição original – putz, eu lembro, tinha cinco anos na época e tenho várias cenas da novela na memória! – a chance de comparar vai ser deliciosa; e para quem é mais novo, fica a oportunidade de pensar a moda atual através de sua representação na ficção…

Como aperitivo, deixo a vocês, leitores, três vídeos: o da abertura original de Tititi, com a impagável cena das tesouras brigando; o da abetura da novela Plumas e Paetês, que traz imagens bem interessantes + letra de música impagável, que mostram muito de com a moda era vista na época; e finalmente, uma cena de Tititi – uma do batom Boka Loka, inesquecível…:

Em tempo: vale a pena procurar cenas e fotos de Tititi original, é uma aula de figurino dos anos 80… o que será que vai ficar para posteridade na nova versão?

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One Response to “TITITI: REMAKE IMPOSSÍVEL!”

  1. 1 Léo Ribeiro

    Amore! Que fooooda esse post! Que orgulho! Acho que se tornou um dos meus favoritos desde já! Pela forma como foi escrita, pela abordagem etc. Show! Claro que quando vi o primeiro capítulo do remake, não parei de lembrar de você e do FKM. Você se antecipou! Ficou excelente!


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